• Jose Dias

Commando

Atualizado: 15 de fev.




Na Estrada de Benfica, mesmo ao lado do restaurante Ferro de Engomar, na esquina da minha rua, havia uma pequeníssima tabacaria. À porta, dependurados numa estaca, como penas as esvoaçar, ali estavam os Commando, uns livrinhos pequenos de banda desenhada com histórias da segunda guerra. Durante a semana juntava-se dinheiro - umas moedas - para se ir escolher um à segunda-feira e lê-lo de fio a pavio no autocarro a caminho da escola. Aquelas estórias davam-nos um guião para colocarmos em marcha as aventuras dos nossos soldados em miniatura. Aqui perto de Coventry, existe um alfarrabista que transformou uma quinta e respetivos estábulos numa das mais bonitas livrarias em que já estive: a Astley Book Farm. Numa das incontáveis salas temáticas, na de comics (que pena a língua inglesa nunca ter traduzido de facto a expressão bande dessinée!), encontrei uma caixa repleta de livrinhos Commando, a 50p cada. Cheirei-os, como fazia mal saía da tabacaria e, de repente, aquele cheiro inconfundível de papel barato e químicos de tinta grosseira levou-me para os meus dez anos, Benfica, Lisboa, e outros cheiros, outras vozes. Por isso tenho lido um livrinho Commando (ou de outras coleções similares como a War Picture Library, Conflict Libraries, ou a Cowboy Adventure Library) quase diariamente. Foram escritos nos anos 50 e 60, chegaram à Europa no início dos anos 80 e falam de lealdade, de se fazer o que está certo e, muito importante, combater o nazismo. Num dos volumes que reune um número reduzido destes livrinhos, o Unleash Hell - 12 of the Best War Picture Library Comic Books Ever, editado por Holland, Steve, lembra-se que esta foi uma forma - talvez a única - que uma geração encontrou para falar das suas experiências de guerra e dos seus traumas. Os argumentistas e ilustradores foram combatentes ou repórteres nos vários teatros da segunda guerra. No entanto, percebemos que os traumas ainda ali estavam e possivelmente nunca desapareceriam, quando constatamos que estes livrinhos nunca foram assinados. E apenas agora percebo que, pré-adolescente, lia as experiências e os traumas de anónimos que viveram alguns, senão todos, a sua adolescência numa guerra que parecia impossível de ganhar ou terminar.

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