Cravos, sonhos e hashtags
- Jose Dias
- 20 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 2 de nov. de 2025

Nasci em Portugal no início dos anos 1970, num país suspenso entre passado e futuro. Crescemos a desenhar soldados com cravos nas espingardas, embalados pelo sonho do 25 de Abril. Fomos a primeira geração com acesso generalizado à educação obrigatória, e soubemos que isso não era dado adquirido. Lutámos por esse direito, honrámo-lo, fomos para as ruas contra as propinas e contra desigualdades, certos de que aprender não era um privilégio, mas um dever coletivo.
E éramos românticos. O Live Aid mostrava-nos que a música podia salvar vidas; o Artists United Against Apartheid ensinava-nos que a arte podia erguer-se contra a injustiça; Sting parecia capaz de salvar a Amazónia sozinho. Talvez fosse ingenuidade, mas havia grandeza nessa ingenuidade. Os nossos heróis tinham consciência social. O romantismo não era apenas um estado de alma — era um motor de ação.
Foi isso que nos aproximou da geração de Pedro da Maia, de Os Maias: idealistas, intensos, sempre à beira da frustração, mas incapazes de deixar de acreditar.
E, no entanto, também dentro da minha geração nasceram sombras. André Ventura é dela, da minha geração, e usa traços desse mesmo romantismo — o apelo às emoções, o discurso de fé em ideias simples, a recusa do cinismo — ao serviço de um objetivo bem mais sinistro: dividir em vez de unir, alimentar medos em vez de esperanças, trocar solidariedade por exclusão. Isso lembra-nos que não basta acreditar: é preciso escolher bem onde colocamos a nossa fé.
As gerações mais novas enfrentam um dilema diferente. Não lhes falta talento, lucidez ou coragem. Mas nasceram submersas num mar de informação, onde verdade e mentira circulam lado a lado, onde tudo parece urgente e irrelevante ao mesmo tempo. Como agir quando cada causa parece dissolver-se na seguinte, quando cada indignação é rapidamente substituída por outra, quando o ruído não deixa espaço ao silêncio necessário para pensar?
É compreensível que a mobilização seja difícil. Mas é precisamente por isso que ela é urgente. A precariedade do emprego, a crise da habitação, a escalada das propinas, o esvaziamento da política em slogans fáceis — tudo isto pede uma resposta coletiva. Pergunto-me muitas vezes: porque não se enchem as ruas? Será a descrença na eficácia da ação? Será a sensação de que nada muda?
Talvez a resposta esteja em recuperar algo que a minha geração soube viver: a convicção de que os ideais valem o risco, mesmo quando parecem impossíveis. Essa convicção levou-nos a sair de casa, a perder horas em assembleias, a levantar cartazes e a gritar palavras de ordem. Muitas vezes não conseguimos o que queríamos. Mas aprendemos que lutar vale a pena, porque é assim que se faz história — mesmo quando não se vence de imediato.
Não quero pintar a minha geração como heróica ou superior. Fizemos muito, falhámos muito. Mas o que podemos oferecer hoje às gerações mais novas é um testemunho: os direitos só existem porque alguém os defendeu. E só sobrevivem se alguém continuar a defendê-los.
À nova geração cabe encontrar as suas formas, os seus símbolos, os seus gestos. Talvez não sejam os concertos solidários nem as manifestações estudantis em massa. Talvez sejam novas linguagens, novos meios de ação, novas formas de ocupar o espaço público. Mas o essencial não muda: acreditar, organizar-se, agir.
Se a minha geração foi romântica, que a vossa seja transformadora. Que consiga olhar para além do ruído das redes, distinguir a verdade da mentira, e descobrir que a política — no sentido mais nobre da palavra — continua a ser o lugar onde os sonhos se tornam possíveis.
Nós ainda cá estamos, não apenas como memória mas como presença, dividida, às vezes contraditória. Cabe-nos também ajudar, partilhar, inspirar. Mas a energia para reescrever o futuro já não é só nossa. É vossa.
E talvez a verdadeira herança dos últimos românticos seja esta: lembrar que nenhum cinismo é mais forte do que a capacidade de acreditar.




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