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  • Jose Dias

Chegou a altura de falarmos com e sobre os negacionistas da pandemia

Religiosamente, dia-sim-dia-não, faço uma chamada vídeo com a minha mãe. Ela tem oitenta e dois anos, mais oitenta que o meu filho, e não a abraço há um ano e meio. Ela, viúva, a morar sozinha em Lisboa e sem mais filhos ou netos, tem passado por esta pandemia sem grandes queixas, ciente do momento extraordinário que todos estamos a viver, que obriga a medidas extraordinárias. Viu e pegou no neto pela última vez quando ele ainda aprendia a andar, com um ano e um mês. A chamada vídeo ajuda-a – e ajuda-nos – a manter uma ligação semi-diária, para que ela veja o dia-a-dia das pequeníssimas evoluções do Amadeo e para que ele tenha na vida dele a presença da avó paterna, a quem gosta de mandar beijinhos com as mãos. A minha mãe quer tanto abraçar-nos como nós a queremos abraçar a ela. O tempo, na sua idade e na do Amadeo – de todos nós – é preciosíssimo. Mas todos compreendemos que a escolha de não viajar para nos encontrarmos é feita por precaução, não só por nós, mas pelo coletivo.

Depois de um ano e meio longe da minha cidade, dos meus amigos, da minha mãe, cheguei ao limite da tolerância para com aqueles que negam que existe uma pandemia, defendem que não deveriam existir restrições aos movimentos das pessoas, se insurgem contra a vacinação e, por cúmulo, insultam quem segue as recomendações da OMS e o bom senso. Por cúmulo, nós, os que se fundamentam na ciência, são para eles os verdadeiros negacionistas, cegos, gado (e já me chamaram pior) que não veem que tudo isto faz parte de uma conspiração. Para eles, a pandemia é um engodo à escala mundial para que todos tenhamos os movimentos limitados e escrutinados, para que sejamos injetados com uma doença e/ou substância que nos controla, para que uma ínfima minoria de personalidades adquira o nosso DNA – as teorias são infinitas e variadas. Mas o que é comum a todas elas é o facto de que cada um se insurge contra as limitações da sua liberdade pessoal. Os argumentos são sempre construídos a partir do eu. Vejo amigos com negócios parados e em risco de falir que compreendem que não existem alternativas ao confinamento se queremos travar a disseminação do vírus – não é sequer ciência, é bom senso. Vejo amigos com festivais parados e em risco de nunca mais se voltarem a realizar a tentar encontrar alternativas para públicos presenciais e a promover modelos online. Vejo tantos amigos músicos, atores, técnicos que decidem ser pró-ativos e a ajudar quem precisa ainda mais que eles. Mas também vejo gente que não se cala porque não pode sair à noite, não pode ir tomar café, não pode fazer uma festa com amigos lá em casa. Certamente desejos legítimos, mas longe da impossibilidade de não vermos uma mãe e avó há um ano e meio. Não se pode permanecer impávido a observar tanta gente a furar confinamentos para dar uma perninha ao Algarve e assim contribuir para uma nova vaga, enquanto outros tantos sacrifícios fazem. Pior, quando não só se impede que profissionais de saúde possam ver as suas famílias durante longos períodos de tempo, como alguns são mesmo alvo de ofensas primárias. Aqueles que nos salvam a vida.

Chegou a altura de falarmos com e sobre os negacionistas da pandemia. Lamento não poderem ir ao Lux ou à praia. Mas há quem não possa ver a família. Lamento muito que tenham deixado enganar o vosso poder de escrutínio e bom senso sobre aquilo que leem. Mas documentos partilhados (‘vazados’), textos em websites que se fazem passar por noticiosos, opiniões ‘de quem sabe’ ou ‘testemunhos que andam a tentar calar’ que revelariam uma conspiração mundial não são factos ou noticias e devem ser vistos com muita precaução. Voam percentagens, gráficos, médias. Mas todas sempre – sempre – de fontes duvidosas ou inexistentes. Sim, está a morrer cada vez menos gente com esta pandemia. Isso não prova que não há pandemia – é o resultado lógico das restrições. Ou seja, não morre pouca gente apesar da pandemia, mas porque se está a conseguir travar a pandemia. Sim, a Amazon e a economia chinesa cresceram exponencialmente durante a pandemia. Mas isso não prova que Bezos e a República Popular da China criaram um vírus para ficarmos todos em casa a consumir online – é o resultado lógico de termos uma população em casa a

consumir – para o qual vocês, senhores negacionistas, também contribuem certamente com a vossa parte.

Nos últimos dias, e sem que tivesse sequer entrado em qualquer discussão, chamaram-me ‘estúpido’ por não perceber quão evidentes são as marcas de uma conspiração. E isso, para mim, é o limite. Sim, eu olho para o que os cientistas descobrem – e que fascinante têm sido os últimos meses nesse campo – para me guiar. Não se ‘acredita’ na ciência – é ciência, estúpido! São factos provados por quem passa uma vida dedicada a observar, teorizar, questionar, experimentar e comprovar. Como cientista social, olho fascinado para o que os meus colegas das ciências exatas e naturais têm conquistado. Conheço alguns e sei das angústias por que passam e não posso deixar de pensar no quanto parece termos retrocedido. Parecemos tão perto da queima das bruxas medieval, do auto de fé aos que desafiaram o geocentrismo, da condenação de cientistas a campos de concentração. Eu rejeito e não admito esse retrocesso porque alguém não gosta de usar máscara. Não admito que prolonguem o tempo que me falta até poder abraçar a minha mãe de novo por quem quer dar uma perninha à praia. Numa pandemia não há barricadas. Somos todos alvos. E a única solução é pensar que o alvo é plural.


Photo: Robert E. Bates, USCDCP


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